A gasolina do posto mudou de novo há poucos dias. Desde 1º de agosto de 2026 ela sai da bomba com 32% de etanol anidro, o chamado E32. E antes mesmo de as pessoas se acostumarem com essa conta, já apareceu a próxima sigla nas conversas de oficina e nos grupos de carro: E35.
O E35 seria a gasolina com 35% de etanol, o limite máximo que a lei brasileira permite hoje. Ela ainda não existe na bomba, está em fase de testes, e é aí que mora a confusão. Muita gente já acha que está abastecendo com E35, ou que ele entra em vigor amanhã. Nenhuma das duas coisas é verdade.
O Que É a Gasolina E35
A gasolina vendida no Brasil nunca é gasolina pura. Ela chega ao posto já misturada com etanol anidro, que é o etanol desidratado usado só para misturar (diferente do etanol hidratado, aquele vendido puro na bomba do flex). O número depois da letra E é justamente o percentual dessa mistura.
Então a conta é direta: E27 tinha 27% de etanol, E30 tinha 30%, o E32 que está valendo agora tem 32% e o E35 teria 35%. Em alguns lugares a mistura aparece com o apelido de álcoolina, mas o nome técnico é sempre gasolina C.
O E35 não está nos postos. A gasolina comum e a aditivada que você abastece hoje são E32, com 32% de etanol anidro, valendo desde 1º de agosto de 2026. O E35 é o próximo passo em estudo, sem data definida.
Por Que 35% e Não 40%
O número não foi escolhido no debate atual. Ele já estava escrito na Lei nº 14.993, a Lei do Combustível do Futuro, sancionada em outubro de 2024. Essa lei fixou a mistura referencial em 27% e deu ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), que é o órgão do governo que define as regras de combustíveis, a prerrogativa de elevar esse percentual até 35% ou reduzi-lo a 22% em caso de crise de oferta.
Ou seja, 35% é o limite legal. Para passar disso seria preciso aprovar uma nova lei no Congresso, não apenas uma resolução do CNPE. Por isso o E35 é tratado como o fim do caminho atual, e não como mais uma etapa de uma escada sem fim.
A lei também colocou uma condição para qualquer valor acima dos 27%: a viabilidade técnica da mistura precisa ser formalmente constatada antes. É essa exigência que transformou o E35 em um enorme programa de ensaios de laboratório.
Em Que Fase o E35 Está Hoje
O E35 está em avaliação técnica, não em implantação. A ANP coordena uma rede nacional de pesquisa, com aporte da ordem de R$ 30 milhões, montada especificamente para viabilizar as misturas E35 e B25 (a versão do diesel com 25% de biodiesel).
A rede reúne o centro de pesquisas da própria ANP, o Instituto Mauá de Tecnologia (IMT), o Instituto Nacional de Tecnologia, os Institutos Lactec, a UFMG e a UFRJ. Foi o IMT que rodou os ensaios do E30 e do E32 em carros e motos de idades e tecnologias diferentes, medindo partida a frio, marcha lenta, aceleração, retomada, dirigibilidade, consumo e emissões.
O que ainda falta ser testado
A lacuna reconhecida é a durabilidade de longo prazo com misturas acima de 30%. Testar se o carro anda bem hoje é uma coisa. Testar como bomba, bicos, mangueiras e vedações envelhecem depois de anos com mais etanol é outra, e exige tempo de bancada que ainda não foi cumprido.
A nova rodada de ensaios do E35 estava prevista para começar em setembro de 2026 e vai além do comportamento imediato do motor. Ela mede fadiga de componentes, compatibilidade química dos materiais, lubricidade, volatilidade, condutividade elétrica e estabilidade do combustível ao longo do tempo. Automóveis de passeio, comerciais leves e motocicletas com diferentes tecnologias de injeção entram nessa avaliação.
Quando o E35 Chega aos Postos
Não há data anunciada. O cronograma desenhado na época da Lei do Combustível do Futuro apontava o E35 para o fim desta década, e não para os próximos meses. A decisão depende dos relatórios técnicos e de uma resolução do CNPE, que é o mesmo caminho que o E32 percorreu.
Vale lembrar como o E32 foi aprovado, porque o E35 tende a seguir o mesmo rito: a Resolução CNPE nº 9, de 14 de julho de 2026, instituiu a mistura em caráter excepcional e temporário, com validade de 180 dias e possibilidade de uma única prorrogação por igual período. É um formato de teste em escala real, com prazo, e não uma mudança definitiva assinada de uma vez.
O que empurra o cronograma para a frente é economia. Cada ponto percentual de etanol substitui gasolina importada. A estimativa oficial é que o E32 evite a importação de cerca de 900 milhões de litros de gasolina por ano. Uma eventual ida ao E35 demandaria algo perto de 2,5 bilhões de litros a mais de etanol por ano na cadeia produtiva, o que explica o entusiasmo do setor sucroenergético com o tema.
O E35 Aumenta o Consumo?
Um pouco, e por um motivo físico simples: o etanol tem cerca de 30% menos energia por litro do que a gasolina. Quanto mais etanol na mistura, menos energia o mesmo litro carrega, e o motor precisa de um pouquinho mais de combustível para fazer o mesmo percurso.
A ordem de grandeza ajuda a não superdimensionar o susto. A perda teórica de rendimento do E30 e do E32 em relação ao antigo E27 fica na casa de 1% a 2%. Do E32 para o E35 são mais três pontos percentuais, o que representa algo próximo de 1% de energia a menos por litro.
Traduzindo para o dia a dia: em um carro que faz 12 km/l, 1% significa cair para cerca de 11,9 km/l. Em 1.000 km rodados, isso dá menos de 1 litro a mais de gasolina. É pouco para perceber no olho, e é exatamente por isso que a percepção costuma errar. A pessoa sente que o carro "piorou muito" quando a conta real mudou pouco, ou não sente nada quando existe um problema mecânico de verdade escondido no meio.
A Regra dos 70% Ficou Para Trás
Aqui está o efeito que mais mexe no bolso, e quase ninguém percebeu. A famosa regra dos 70% diz para dividir o preço do etanol pelo preço da gasolina e abastecer com etanol se o resultado ficar abaixo de 0,70. Essa conta nasceu numa época em que a gasolina brasileira tinha 20% a 25% de etanol.
O problema é que o número 70 depende do quanto a gasolina rende. E a gasolina de hoje rende menos que a de dez anos atrás, justamente porque já tem muito mais etanol dentro dela. Cada aumento da mistura empurra o ponto de equilíbrio para cima.
Com o E32, o ponto de equilíbrio fica em torno de 72%. Se o E35 for adiante, deve andar mais um ponto, ficando perto de 73%. Parece pouco, mas é justamente na faixa entre 70% e 73% que a maioria das decisões de bomba acontece, então muita gente está abastecendo gasolina achando que economizou quando o etanol já compensava.
Vale um alerta aqui. Circulam por aí números bem maiores, de 75% a 78%, que vêm de uma conta furada: ela parte da relação de energia entre etanol e gasolina pura e depois desconta de novo o etanol que já está dentro da gasolina, aplicando o mesmo desconto duas vezes. O efeito real de cada aumento da mistura é de 1 a 2 pontos percentuais, não de 5 a 8.
E nenhum desses números é uma regra universal. Cada carro tem calibração, eficiência térmica e uso próprios. A única conta confiável é a paridade do seu próprio veículo: dividir o km/l que ele faz com etanol pelo km/l que ele faz com gasolina. A conta completa está no post sobre etanol ou gasolina.
Quais Carros Tendem a Sentir Mais
Mais de 80% da frota nacional é flex, e esse é o grupo tranquilo. Os engenheiros brasileiros projetaram esses carros para o cenário mais extremo possível, que é rodar 100% com etanol hidratado. Mangueiras, tanque, bomba, bicos e sedes de válvula já são dimensionados para isso, então a diferença entre E27, E32 e E35 é irrelevante do ponto de vista de durabilidade do material. Para o flex, a questão é econômica, não mecânica.
A atenção fica com a frota que não é flex, e por três motivos químicos que vale entender antes de olhar os perfis de carro.
Lubricidade
A gasolina, por ser derivada do petróleo, lubrifica naturalmente as peças que trabalham em atrito dentro do sistema de combustível. O etanol não lubrifica, ele age como solvente. Quanto maior a concentração, maior o atrito nos êmbolos da bomba de combustível, nas vedações e nas agulhas finas dos bicos injetores. É por isso que a bomba costuma ser a primeira peça a reclamar.
Absorção de água
A molécula do etanol se liga com facilidade à água. Mesmo o etanol anidro, que sai da distribuidora sem água, absorve umidade se ficar parado no tanque por muito tempo. Isso pode levar à separação de fases, quando o etanol saturado de água desce para o fundo do tanque e se separa da gasolina, causando partida difícil e engasgo. Carro de uso esporádico é o mais exposto a isso.
Mistura pobre
Como o etanol tem menos energia, o motor precisa injetar mais volume para manter a proporção correta de ar e combustível. Quem consegue fazer esse ajuste sozinho passa ileso. Quem não consegue trabalha com mistura pobre, ou seja, oxigênio demais para pouco combustível, o que eleva a temperatura da câmara de combustão.
Os três perfis de maior atenção
- Carros antigos e carburados, das décadas de 1980 e 1990, calibrados para gasolinas com bem menos etanol. O carburador é mecânico e não corrige a mistura sozinho, então o risco é trabalhar quente demais, com batida de pino e desgaste acelerado.
- Importados sem tropicalização, projetados para gasolina pura ou misturas leves. Neles a central eletrônica tenta compensar, mas a margem de correção tem limite. Quando esse limite é atingido, o carro acende a luz de injeção e pode entrar em modo de emergência com potência reduzida.
- Motocicletas não flex, que sofrem mais rápido por girarem em rotações muito altas e por muitas vezes usarem arrefecimento a ar, o que deixa menos folga térmica para lidar com mistura pobre.
A Saída de Quem Tem Carro Não Flex
Aqui está a informação prática que costuma escapar: a mudança para o E32 valeu para a gasolina comum e para a aditivada, mas a gasolina premium ficou de fora e segue com 25% de etanol. Trocar comum por aditivada não resolve nada, porque as duas têm o mesmo teor. A diferença da aditivada está no pacote de detergentes, não na mistura.
Então quem tem carro antigo, importado ou moto não flex e quer se manter no teor mais baixo tem hoje um caminho legal e único, que é abastecer premium. A ressalva é honesta: ela custa bastante mais por litro e não está disponível em todo posto, principalmente fora dos grandes centros. Para muita gente vai ser inviável no dia a dia, e aí a resposta passa a ser acompanhar o carro de perto em vez de trocar de combustível.
A Disputa Que Corre em Paralelo
Vale saber que o E32 não foi aceito sem contestação, e isso influencia o ritmo do E35. A Associação Brasileira de Engenharia Automotiva argumentou que validar a mistura olhando apenas partida a frio, marcha lenta e dirigibilidade imediata é insuficiente para atestar a durabilidade das peças, que só aparece depois de anos de exposição.
Em 22 de julho de 2026, o Ministério Público Federal entrou com ação civil pública pedindo a suspensão do E32 até que a segurança técnica fosse comprovada, alegando violação do princípio da precaução, além de indenização por danos coletivos. O Ministério de Minas e Energia rebateu apoiado nos ensaios do Instituto Mauá de Tecnologia e em pareceres de consultoria automotiva internacional, e manteve o cronograma.
Para quem dirige, o efeito prático dessa disputa é um só: o E35 dificilmente vai avançar sem os testes de durabilidade concluídos. É por isso que ele continua sem data.
Como o Navez Ajuda a Enxergar Isso
Toda a conversa acima termina no mesmo lugar: você precisa do número do seu carro, não da média nacional. A paridade individual, aquela divisão do km/l no etanol pelo km/l na gasolina, é a única forma de saber se você está perdendo dinheiro na bomba, e ela muda a cada vez que a mistura muda.
Registrando cada abastecimento no Navez, o app calcula o km/l real por combustível e o custo por quilômetro rodado. Você deixa de comparar preço de litro e passa a comparar custo por quilômetro, que é o que de fato sai do seu bolso. E quando a mistura mudar de novo, a curva de antes e a de depois vão estar na mesma tela, em vez de você tentar lembrar quanto o carro fazia no ano passado.
Se quiser entender a mecânica da decisão na bomba com calma, ela está detalhada no post sobre etanol ou gasolina. E o efeito da mistura atual sobre os componentes do motor está no post sobre a mudança de 30% para 32%.
Descobrir qual combustível compensa no seu carroResumindo: o E35 é o teto legal de 35% de etanol, ainda em testes de durabilidade e sem data para chegar aos postos. Hoje você abastece E32. Se o seu carro é flex, a questão é econômica, e a régua dos 70% virou algo perto de 72%. Se o seu carro não é flex, a gasolina premium segue com 25% de etanol e é a única alternativa nos postos. Nos dois casos, quem acompanha o próprio km/l decide com número em vez de achismo.
